Como fugir de golpes na hora de investir em fundos

dezembro 17, 2010 at 5:01 pm Deixe um comentário

Sócios da maior gestora de recursos de MG dão dicas simples para evitar casos como do “Madoff mineiro”

João Sandrini, de Exame.com

Neste domingo, o empresário Thales Emanuelle Maioline foi preso pela Polícia Civil de Minas Gerais por suspeitas de ter desviado 50 milhões de uma aplicação financeira criada por ele mesmo. Apelidado de “Bernard Madoff mineiro”, Maioline criou um fundo de investimentos que prometia retornos de 5% ao mês – algo praticamente impossível de se conseguir no longo prazo. O dinheiro captado junto aos novos investidores servia para remunerar os antigos – daí a semelhança com o esquema montado por Madoff. Mesmo sem registro na Comissão de Valores Mobiliários (CVM) nem autorização para captar recursos no mercado, Maioline teria ludibriado cerca de 2.000 investidores.

O caso serve para ilustrar a ingenuidade de muitos investidores no Brasil. EXAME.com conversou com dois executivos da maior gestora independente de recursos de Minas Gerais, a DLM Invista, que administra 300 milhões de reais. Na entrevista a seguir, Marcelo Domingos (CEO) e Paulo Caputo (sócio-diretor da área de private equity) explicam como funciona um fundo de investimentos com controle de riscos adequado e enquadrado dentro das normas do Banco Central e da CVM – e como não cair em armadilhas de picaretas:

EXAME.com – O que o investidor precisa fazer para não ser vítima de um golpe na hora de contratar a ajuda de um profissional para investir?
Domingos – O que qualquer um deve fazer antes de aplicar em um fundo é verificar se ele está registrado na CVM. Isso é básico.

EXAME.com – Ter o registro já basta para o investidor não cair numa armadilha?
Caputo – A lei brasileira que regulamenta a atuação dos fundos de investimento protege muito bem o investidor brasileiro de um Madoff da vida. Quando eu contrato a BNY Mellon para ser a administradora dos meus fundos, sei que vou ter que respeitar tudo o que está escrito no estatuto. Como trabalhamos com renda variável, a própria valorização de uma ação do portfólio pode fazer com que de uma hora para outra o fundo esteja desenquadrado. No mesmo dia, a BNY Mellon vai entrar em contato conosco para avisar que precisamos rebalancear o fundo de maneira que ele volte a se enquandrar nos limites de risco definidos por nós mesmos e que tiveram a anuência dos investidores. Se não fizermos isso, a BNY Mellon nos denuncia à CVM no dia seguinte. O mesmo acontece com o agente que contratamos para fazer a custódia dos ativos comprados pelo fundo. A custódia, no nosso caso, está a cargo do Bradesco. Se nós declararmos a realização de alguma operação e eles perceberem que o ativo não entrou em custódia, na mesma hora vão nos ligar atrás de explicações. A tecnologia atual permite que todo esse controle seja feito de maneira rígida. A mesma coisa vale para a divulgação de nossos resultados aos quotistas dos fundos. Nem que quiséssemos poderíamos declarar ter obtido um rendimento superior ao que realmente alcançamos. Quem vai se encarregar de enviar nossos resultados para conhecimento dos quotistas é a BNY Mellon. Como eles prestam serviços para boa parte da indústria brasileira de fundos, se um dia fizerem algo errado, sofrerão um enorme dano à imagem. Então o que o investidor deve fazer é verificar se o fundo tem registro na CVM, quais foram os resultados obtidos nos últimos anos e quem são as casas que prestam serviços de administração, custódia e auditoria. Se alguém disser que ainda não possui o registro da CVM, mas que esse será o próximo passo, ou então vier com outra historinha, o investidor deve pular fora na hora. Nunca dê procuração para que alguém assim invista por você.

EXAME.com – Se é tão simples assim, por que tanta gente ainda perde dinheiro com golpes no mercado?
Domingos – Falta ainda educação financeira ao investidor brasileiro. Muitas vezes ele não tem o conhecimento básico necessário para selecionar um fundo. Esse é um dos motivos que leva o investidor mineiro a ser tão desconfiado e muitas vezes preferir manter o dinheiro depositado no banco, aplicado em fundos que cobram taxas altas de administração sem apresentar um retorno tão interessante. Ele não sabe que pode contratar um serviço de melhor qualidade sem correr nenhum risco da instituição em si – apenas o risco de mercado, comum a qualquer investimento em bolsa.

EXAME.com – Esse tipo de situação pode prejudicar futuras captações de recursos por empresas idôneas do mercado financeiro, principalmente em Minas Gerais?
Caputo – Eu acho que quem presta um serviço de qualidade e possui todos os controles de risco exigidos pelo mercado pode usar isso a seu favor para se diferenciar. O que eu ouvi dizer é que esse empresário suspeito de desviar dinheiro dos investidores em Minas Gerais oferecia como garantia aos quotistas um cheque assinado por ele mesmo com valor igual à quantia captada. Essa é uma prática que não existe no mercado e que por si só já desperta suspeitas.
Domingos – Isso já aconteceu muitas vezes no Brasil. Lembra da empresa que criava avestruzes com dinheiro captado no mercado e prometia retornos excelentes? Basta a pessoa parar para pensar quantas vezes já comeu avestruz que já vai desconfiar que um investimento nisso não pode gerar rios de dinheiro. Esses casos precisam servir para que o investidor aprenda a tomar os cuidados mínimos necessários.

EXAME.com – Como a DLM investe o dinheiro?
Domingos – Começamos em 2003 e somos os gestores de 300 milhões de reais distribuídos em três fundos de ações, um fundo multimercado e outros fundos exclusivos constituídos sob medida para clientes com mais dinheiro. Captamos recursos principalmente junto a pessoas físicas em Minas Gerais e agora também no sul do país. Nosso fundo multimercado tem apresentado ótimos resultados e aparecido nas primeiras posições em diversos rankings, inclusive em um elaborado pela revista EXAME recentemente. Temos como meta obter um rentabilidade de 110% do CDI correndo um risco bastante baixo – e é isso mesmo que estamos entregando. Também estamos montando um fundo de private equity exclusivamente para investir em empresas de TI. Já tivemos reuniões com muitos investidores e planejamos captar 200 milhões de reais.

EXAME.com – Como são os fundos de ações?
Domingos – Nosso principal fundo é multisetorial e não segue nenhum índice como o Ibovespa. Com uma filosofia de longo prazo, procuramos investir em 10 a 15 papéis de empresas que estejam sendo negociadas abaixo do valor justo de acordo com análises fundamentalistas. A maioria das empresas do portfólio está ligada ao mercado interno e possui valor de mercado de 500 milhões a 3 bilhões de reais. Não que só façamos isso. Temos posições em Itaúsa, Bradesco e Vale. Também compramos um pouco de Petrobras depois da realização da oferta pública. Mas achamos que é mais fácil enxergar o valor escondido de uma companhia antes do resto do mercado quando a empresa é menor.

EXAME.com – Quais são as principais posições?
Domingos – Acreditamos muito nas ações da Ecorodovias, Telesp e Valid [antiga American Banknote]. A Ecorodovias tem ativos ótimos no Sudeste e no sul do país e uma geração de caixa constante. Nesse setor, também gostamos muito da Wilson Sons, uma empresa que presta serviços de cabotagem e atracação em alguns portos brasileiros. É uma empresa que pode se beneficiar muito do imenso desenvolvimento previsto para a indústria brasileira do petróleo.
Caputo – Pão de Açúcar é outra tese de investimento em que acreditamos. A empresa praticamente entrou num negócio novo com as aquisições do Ponto Frio e da Casas Bahia. A compra do Ponto Frio já começou a dar resultados. No caso das Casas Bahia, é uma fusão que poderá funcionar em breve. Não temos dúvida que o Pão de Açúcar tem condições de ser um dos vencedores na indústria brasileira de varejo. Eles também estão com um projeto bem interessante para a área de comércio eletrônico e podem crescer muito nesse segmento. Só não dá para falar quando isso vai começar a se refletir no preço das ações.

EXAME.com – Qual é o diferencial da DLM na área de ações?
Domingos – Temos um conhecimento muito aprofundado do setor de tecnologia. Dois sócios que entraram recentemente na empresa são dessa área. Um é o próprio Paulo Caputo, que era vice-presidente da Datasul e participou de todo o processo de integração com a Totvs. O outro é o Jorge Steffens, que foi presidente da Datasul. Temos um fundo de ações [o FIA DLM BrazilTech] que foi constituído especificamente para investir em empresas intensivas em tecnologia. Não são apenas empresas de TI porque existem poucas companhias desse segmento na bolsa. O fundo, na verdade, pode investir em qualquer empresa que usa muito a tecnologia em seu negócio. A OdontoPrev, por exemplo, atua na área de planos odontológicos, mas poderia estar nesse fundo porque usa sistemas bastante sofisticados em termos de tecnologia.

EXAME.com – Quais outras ações de tecnologia são interessantes?
Domingos – Gostamos também da Valid, de empresas de call center como a Contax e da Bematech.
Caputo – Ao contrário da maioria dos analistas, vemos um bom potencial nas ações do UOL. A publicidade na internet tem crescido a taxas interessantes. Além disso, achamos que a empresa está em um momento em que vai precisar tomar uma decisão. Ou eles fecham o capital ou vão se juntar a mais alguém que tenha uma atuação complementar, de repente na área de comércio eletrônico. Em qualquer um dos casos, achamos que o evento seria bastante positivo para os acionistas.

EXAME.com – O mercado espera que o UOL compre alguém há vários anos e até agora nada foi anunciado. Por que apostar nisso?
Caputo – Eles estão com muito dinheiro em caixa, colocado em investimentos bastante conservadores. A empresa não paga dividendos, o que é entendido por nós como a preparação para um futuro acordo. E o controlador [o grupo Folha] sabe do valor estratégico do negócio, já deve ter recebido várias ofertas de compra e recusado todas. Então acreditamos que eles vão buscar aquisições para crescer.

EXAME.com – O investimento em empresas de tecnologia com ações em bolsa ajuda a DLM a selecionar as empresas que futuramente farão parte do fundo de private equity?
Caputo – A ideia é essa mesma. Aproveitar nosso conhecimento desse setor de diferentes maneiras e nos manter informados sobre os investimentos que outras empresas estão fazendo. No Brasil, há fundos de private equity que investem em TI, mas não existe ninguém para trabalhar especificamente nesse nicho. Eu e o Jorge Steffens utilizamos o conhecimento adquirido durante vários anos na Datasul para selecionar as empresas que têm potencial de crescimento. Procuramos companhias especializadas no desenvolvimento de softwares utilizados por empresas, mas que ficam armazenados em servidores acessados pela internet [computação em nuvem]. As plataformas de tecnologia serão desenvolvidas por grandes empresas americanas como a IBM, a Microsoft e a Oracle. Nós queremos encontrar as empresas que saibam usar essas plataformas para desenvolver softwares inovadores. E também procuramos companhias que saibam trabalhar na área de software de gestão em nichos que hoje não são explorados pela SAP ou pela Totvs.

EXAME.com – A Ideiasnet é um holding que investe em várias empresas de tecnologia. A DLM quer fazer um trabalho parecido?
Caputo – Isso mesmo. Por sinal, a Ideiasnet uma empresa da BM&FBovespa em que também enxergamos potencial. Assim como nós, eles compram participações minoritárias em companhias de tecnologia com potencial de crescimento. Acreditamos inclusive que podemos ser parceiros e investir juntos em algumas dessas empresas.

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