O ex-rei do capitalismo

novembro 22, 2010 at 10:09 am Deixe um comentário

Com seu bônus de 400 milhões de dólares e fama de ostentador, Stephen Schwarzman foi o símbolo da Wall Street pré-crise

Tiago Lethbridge, da Exame

Em fevereiro de 2007, O mercado financeiro americano teve o seu Baile da Ilha Fiscal. O motivo de festa era o aniversário de 60 anos de Stephen Schwarzman, controlador do fundo de private equity Blackstone. Mais que o aniversário, celebravam-se, ali, os feitos do homem mais poderoso de Wall Street. Seu fundo controlava empresas que faturavam 171 bilhões de dólares e tinham mais de meio milhão de funcionários. No ano anterior, o bônus de Schwarzman havia sido de 398 milhões de dólares, ou mais de 1 milhão de dólares por dia. E, dias antes da festa, ele concluíra a compra da companhia imobiliária Equity Office Properties por 39 bilhões de dólares. Limusines engarrafaram a Park Avenue, em Nova York, para despejar os 500 luminares convidados. Entre eles, os presidentes dos maiores bancos de investimento do mundo, todos também vivendo o auge de seu poder. Rod Stewart subiu ao palco (o cachê: 1 milhão de dólares); um recém-concluído retrato em tamanho real do aniversariante foi exibido. No mês seguinte, Schwarzman entrou com a papelada para a abertura de capital do Blackstone, que faria sua fortuna chegar a 10 bilhões de dólares. Quem viu nesses excessos todos um mau sinal acertou em cheio. Poucos meses depois da festa, o reinado de Schwarzman chegou ao fim. No ano seguinte, Wall Street inteira iria para o buraco.

A história de Schwarzman – do início modesto à queda, passando pelo breve período monárquico – é narrada no recém-lançado King of Capital (“O rei do capital”), escrito pelos jornalistas americanos David Carey e John Morris. Em 1985, Schwarzman juntouse a seu chefe no Lehman Brothers, Peter Peterson, para tentar aproveitar aquela que era a maior sensação de Wall Street nos anos 80: a onda de compras de empresas por fundos. Reinava absoluto, na época, o KKR, fundado por Henry Kravis. O KKR inventou a forma com que os grandes fundos ganhariam fortunas. Para comprar uma empresa, bastava entrar com um pouco de dinheiro, tomar o resto emprestado e, depois, usar o caixa da companhia comprada para pagar a dívida. Ao fim do processo – se tudo, claro, desse certo -, os fundos vendiam a empresa por um preço maior, e sem a dívida. Schwarzman foi um dos que viram na estratégia da KKR uma oportunidade única de ganhar dinheiro. Ao mesmo tempo, em Washington, David Rubenstein e dois sócios fundavam o Carlyle, com objetivo semelhante. Hoje, Blackstone, Carlyle e KKR são os maiores fundos de private equity do mundo.

Desde o nascedouro, os sócios do Blackstone demonstraram um dom sobrenatural para adivinhar para onde iria o mercado – para os concorrentes, foi pura sorte. O primeiro fundo levantado pelo Blackstone foi fechado numa quinta-feira, 15 de outubro de 1987. Na segunda-feira seguinte, o mercado acionário americano desabaria – o dia entrou para a história como a “Segunda- Feira Negra”. Segundo os autores, os melhores investimentos do Blackstone foram aqueles em que Schwarzman e companhia apostaram acertadamente no vaivém dos ciclos econômicos. Quando Schwarzman decidiu que seria o primeiro dos grandes fundos de private equity a abrir o capital na bolsa de Nova York, lá estava a sorte outra vez do lado dele. O fundo vendeu ações em junho de 2007, e pouco depois a crise de crédito começou a abalar as estruturas do sistema financeiro mundial. Quem comprou ações do Blackstone, portanto, se deu mal, muito mal. Hoje, os papéis valem 60% menos que no dia do IPO.

Além da sorte, uma característica acompanhou Schwarzman ao longo da história do Blackstone – sua aversão a perder dinheiro fez com que o fundo evitasse apostar alto demais em meio a bolhas. Outros, como o outrora celebrado Cerberus ou a Hicks, Muse, foram destroçados por investimentos que não faziam sentido. Segundo os autores, Schwarzman costumava aparecer na sala dos sócios, com dedo em riste, para dizer: “Eu odeio perder dinheiro. Lembrem- se disso”. Quando isso acontecia, a consequência era imediata. Ele não esperava o segundo erro para demitir executivos que se metiam em negócios furados. Certa vez, quando um sócio foi explicar a ele por que um negócio estava micado, ouviu a seguinte resposta: “Cadê a p. do meu dinheiro, seu imbecil de m.?” E rua. Claro, outra consequência desse temperamento foi a alta rotatividade entre sócios. Uma das maiores perdas foi a de Larry Fink, que fundou, com Schwarzman, a área de gestão de recursos do Blackstone. Fink acabou saindo para fundar a Blackrock – que se tornaria a maior gestora do mundo, com 3,2 trilhões de dólares em ativos.

Ao sobreviver às diversas bolhas que marcaram o mercado de private equity dos anos 80 ao início desta década, Schwarzman pôde aproveitar o melhor momento da história para fundos como Blackstone, KKR e Carlyle, a segunda metade dos anos 2000. Com crédito farto e bancos emprestando de forma ensandecida, ficou cada vez mais fácil comprar empresas, a preços cada vez maiores. Companhias como Hertz, Toys “R” Us e Dunkin Donuts acabaram nas mãos dos fundos – que começaram a devolver a seus investidores bilhões de dólares por ano em lucros. A participação dos fundos no mercado de fusões e aquisições saltou de 3% para mais de 20%. A farra durou até meados de 2007, quando as primeiras fissuras no mercado imobiliário americano apareceram. Com menos crédito disponível, Schwarzman e sua turma perderam poder de forma brutal: tornou- se praticamente impossível fazer grandes aquisições. Um dos maiores negócios feitos pelos fundos após a crise foi a compra dos parques Busch Gardens pelo Blackstone por 2,7 bilhões de dólares, um troco se comparado aos cheques assinados nos tempos de euforia. Em 2008, a remuneração de Schwarzman caiu para 350 000 dólares: é menos de um milésimo do dinheiro embolsado por ele em 2006.

Não bastasse a reversão na maré, Schwarzman ainda teve de lidar com uma crise de imagem causada por sua incorrigível capacidade de ostentar. Como sua festa de 60 anos demonstra, ele não tem o menor pudor de exibir a fortuna que conquistou. Sob a condição do anonimato, um gestor de private equity lembra, no livro, o dia em que passeava com sua família nas praias de St. Barts, no Caribe. Foi quando surgiu um iate, e dele saíram dois jet skis. Os pilotos desembarcaram na praia, montaram uma mesa na areia, puseram um balde de gelo para o vinho ficar na temperatura ideal e começaram a abastecer a mesa. Os jet skis voltaram para o iate para pegar o casal Schwarzman. Disse o colega: “Dizer que aquilo era ostentação é pouco. Realmente, naquela hora senti que deveria haver uma revolução”. Após a festa de 60 anos, sensação semelhante se espalhou pelos Estados Unidos – sobretudo quan do o distinto público ficou sabendo que barões do private equity pagam uma alíquota de imposto menor que a classe média americana. Começou, então, um inferno de relações públicas que fez com que Schwarzman ficasse na moita dali em diante.

Qual é o futuro dos megafundos de private equity? Os autores de King of Capital não escondem seu otimismo. Gestores como Schwarzman e Kravis têm meio trilhão de dólares para investir, uma fonte invejável de capital em dias como os atuais. A tendência, afirmam, é que os grandes fundos ocupem um espaço deixado por bancos encolhidos. O envelhecimento da população fará com que o dinheiro de fundos de pensão flua em direção a fundos com maior potencial de retorno, o que pode beneficiar gigantes como o Blackstone. Há, no entanto, problemas a resolver. O principal deles é a montanha de dívida acumulada pelos fundos na aquisição de empresas durante a bolha de 2005, 2006 e 2007. São cerca de 800 bilhões de dólares em dívidas a vencer em 2011 e 2012 – e, com a economia americana capengando, ficará mais difícil para as empresas gerar dinheiro suficiente para arcar com esse papagaio. Uma onda de calotes, claro, não faria bem algum à fama dos ex-reis do capitalismo. É cedo para dar Schwarzman e seus pares como vencidos – mas é igualmente cedo para dizer que já são os vencedores de novo.

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