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Os trancos e barrancos da Bolsa de Valores
Ana Borges
Excesso de ofertas públicas, promessas não cumpridas, crise internacional e desaceleração econômica. Motivos não faltam para justificar as fortes perdas das ações mais novas listadas na Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa).
No entanto, quando o assunto é perda, o setor imobiliário é destaque. Com as fortes quedas, o investidor individual que entrou na crença de que sairia ganhando em mais uma OPA (Oferta Pública de Ações) nada mais pôde fazer do que vender e realizar o prejuízo.
Segundo os dados da pesquisa realizada pelo Monitor Mercantil, dos 251.333 investidores pessoa física que ingressaram nas ofertas públicas de ações (OPAs) das companhias que abriram o capital, apenas 52.925 continuam em posse dos papéis. São quase 200 mil investidores a menos, em cerca de dois anos.
Excesso de aberturas
Muitos no mercado argumentam que não pode haver outro culpado senão o investidor, que não leu os prospectos e na ânsia de ganhar mais comprou qualquer ação sem avaliar os riscos. Mas, na realidade não faltam culpados para a sangria das OPAs do setor de construção civil.
“Houve o problema de excesso de aberturas de capital. Não estávamos preparados para este cenário de excesso de euforia. As empresas se adaptaram em um espaço muito curto de tempo e apresentavam problemas de governança”, conta professor Alexandre Di Miceli, coordenador executivo do Centro de Estudo em Governança Corporativa (CEG) da Fundação Instituto de Pesquisas Contábeis, Atuariais e Financeiras (Fipecafi).
Com o crescimento do número de ofertas, o investidor também se tornou menos seletivo e daí que deriva sua parcela de culpa. “Muitos que investiram em ações nem sabiam o que estavam comprando. Não fizeram uma avaliação mais aprofundada do risco. Numa situação de crise, os riscos dessas empresas aumentam”, ressalta Di Miceli.
Risco no prospecto
O sócio da Nova Financial, Eduardo Barros, vai mais além. “As empresas escreveram seus prospectos de acordo com as regras da Comissão de Valores Mobiliários (CVM). As informações estavam à disposição e não se pode culpar a empresa”, defende. Ele acrescenta que nos prospectos as empresas já declaravam a intenção de comprar terrenos. “O risco estava no prospecto. No mercado acionário, o investidor está sujeito ao risco e à crise financeira. O investidor deve pensar no longo prazo na hora de aplicar o dinheiro. É preciso ter a informação”, complementa.
Outro lado
Se o investidor tem sua parcela de culpa, o sistema como um todo tem uma responsabilidade muito maior quando o assunto são perdas nas ofertas públicas. Di Miceli, que tem realizado estudos sobre o assunto, define a situação: “a culpa é coletiva”. Mesmo que um investidor tivesse todo o interesse e estudasse os prospectos de capa a capa, poderia embarcar em um investimento falho. Além de problemas de governança, uma crise financeira totalmente inesperada, há outro problema: a responsabilidade das instituições financeiras que foram responsáveis pela oferta.
Nos prospectos, as empresas falavam dos cenários e projeções de investimento. Apesar de haver uma parte do documento que aborda os riscos, não fica claro o quanto aquele cenário é factível. Ao mesmo tempo, houve uma forte pressão das instituições financeiras para a abertura de capital. O movimento chegou a ponto de o Credit Suisse decidir dar crédito para que empresas como Agrenco crescessem e, logo em seguida, buscassem o mercado de capitais.
O problema é que, nestes casos o próprio Credit era o coordenador da emissão de ações. “Ocorreram diversos casos em que havia conflitos de interesses”, lembra o professor. Como o banco que está coordenando a oferta vai definir o preço justo da empresa, se tem ações ou dívidas desta companhia?
Papel do analista
Outro caso de conflito de interesses está relacionado às análises. Enquanto os analistas deveriam ser imparciais ao avaliar uma empresa pós-OPA, muitas vezes, acabavam esbarrando em limitações. No mesmo caso da Agrenco, o único analista que cobria a empresa em seu dia-a-dia era do Credit Suisse. Quando a empresa passou a apresentar problemas o especialista ainda mantinha a recomendação de compra. Resultado: as ações “viraram pó”.
Faltou também a possibilidade de que especialistas pudessem traduzir os prospectos para os clientes. Com a Lei do Silêncio, a CVM não permitia que nenhum analista das corretoras participantes da oferta pudesse falar sobre a empresa durante a colocação dos papéis ou emitir um relatório. “A Lei do Silêncio está sendo discutida e deve ser revista pela CVM”, lembra o professor da Fipecafi.
Pressa
“Os bancos buscavam as empresas para aproveitar a janela de oportunidade. Mas é preciso saber que a adaptação de uma estrutura familiar para uma companhia aberta demora. Os processos foram apressados”, diz Di Miceli. Diante da rapidez muitas deixaram falhas nas análises a respeito das políticas de gestão de risco e governança.
A visão era de que para entrar no mercado era apenas mostrar que cumpria as regras do Novo Mercado. “Ao invés de passarem por mudanças profundas, abrir capital virou um checklist do Novo Mercado. Assim, muitas empresas se mostraram frágeis e arriscadas. É natural que as ações tenham caído. Em alguns casos o CEO se confundia com a figura do diretor financeiro e RI. Também ocorreram problemas com partes relacionadas”, resume Di Miceli.
Além disso, a maior parte das companhias do setor de construção civil projetou taxas de crescimento bem acima do factível. Os planos eram e crescer rapidamente. Mas não houve estudos sobre a viabilidade deste crescimento e sustentabilidade. “As previsões eram otimistas demais, para não dizer frágeis”, destaca.
Mau exemplo
A experiência negativa de um é transmitida para o maior número possível de investidores. A fragilidade e as perdas causadas pelas novas companhias tendem a prejudicar novas captações futuras no mercado. “Problemas como esses passam uma mensagem negativa para o investidor e podem acabar inviabilizando que outras empresas boas ingressem no mercado”, ressalta o professor. Ele lembra que a tendência é de uma maior rigidez das regras de forma a retomar a confiança do investidor nas ofertas públicas e impedir um novo “trauma no mercado”
Add comment Novembro 26, 2008
Como está o mercado para os investidores não-profissionais
Investir em ações não é para qualquer pessoa: é preciso ter o coração forte para agüentar as oscilações comuns em qualquer Bolsa de Valores. Contudo, a atual crise financeira internacional tem exigido doses extras de autocontrole dos investidores “comuns” (que não trabalham no mercado financeiro), que já viram o dinheiro aplicado reduzir-se consideravelmente desde meados de setembro, quando as turbulências se agravaram.
É o caso do funcionário público aposentado Artur Barbosa Horta, 68 anos, que investe na Bovespa (Bolsa de Valores de São Paulo) há 20 anos. Horta, que começou a comprar ações com o intuito de garantir uma aposentaria tranqüila, teria um grande prejuízo caso vendesse seus papéis hoje. “Em relação há um ano, meu prejuízo seria de R$ 1 milhão”, calcula. O aposentado acompanha com preocupação a desvalorização da Bolsa paulista, cujas perdas acumuladas desde setembro já esbarram nos 40%. “Nunca houve uma crise igual. É a mais grave desde quando comecei a aplicar em ações. Essa foi para valer”, comenta Horta.
A apreensão de Horta é compartilhada pelo professor universitário Marco Antonio Picon, que aplica na Bovespa há cerca de cinco anos. O professor, que prefere não falar em valores, estima que perdeu mais da metade do capital investido desde que a crise se acentuou.
“Na verdade, deixei de ganhar, porque não realizei o prejuízo. Mas caso vendesse, perderia 55% do total investido. Por isso, acompanho os pregões diariamente, para evitar mais perdas”, afirma.
Os prejuízos sofridos por Horta e Picon podem assustar os ”marinheiros de primeira viagem”, que arriscaram parte de suas economias em um tipo de aplicação marcada pela volatilidade. Mas a recomendação dos especialistas se resume a uma palavra: paciência.
Segundo o gestor da área de Economia e Ciências Contábeis da USCS (Universidade São Caetano do Sul), Francisco Funcia, a Bolsa tem, historicamente, movimentos de altas e baixas e funciona como um termômetro do que está acontecendo nos mercados e do grau de confiança dos agentes econômicos. “Em momentos como esse, ela oscila bastante. Então, quem investiu parte dos seus recursos para um complemento de aposentadoria no futuro precisa ter paciência”, aconselha.
O professor de Finanças do curso de Administração da FEA/USP (Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo) José Roberto Ferreira Savoia concorda com Funcia. “As pessoas que não venderam ações até o momento devem permanecer com elas porque agora caíram a um nível bastante baixo. Quem tem como esperar e levar o investimento a um longo prazo deve aguardar, pois a perspectiva é de uma retomada das Bolsas”, avisa.
Já para aqueles que compraram ações na época em que estavam valorizadas, com o intuito de obter lucros rápidos, o conselho é outro. “As pessoas que eventualmente tentaram aproveitar a onda altista que vinha acontecendo no primeiro semestre deste ano e compraram ações com o objetivo de curto prazo, talvez valha a pena vendê-las agora para o prejuízo não ser ainda maior”, pondera Funcia. “De qualquer forma, o conselho geral é: quem puder, não deve mexer”, orienta.
Papéis seguros – É natural que os investidores sofram com o atual momento de incerteza, pois até aqueles que investiram em ações seguras, como a das empresas Vale e Petrobras, já vêem acumular os prejuízos.
Isso porque, quando a crise se instalou, derrubou as exportações de commodities [matérias-primas como petróleo, negociadas no mercado internacional] — setor a que pertencem essas empresas. Com isso, quem investiu nesse setor, migrou para aplicações mais seguras. E o valor desses tipos de ações caiu.
Entretanto, mesmo com a atual desvalorização, o professor de Economia Internacional da FGV (Fundação Getúlio Vargas) Evaldo Alves ainda considera promissor o investimento nesses papéis. “Essas são as ações que vão se recuperar mais rapidamente. Elas serão sempre uma boa alternativa porque são papéis de setores que sempre vão ser necessários, como alimentação e energia. O que não é o caso de ações de empresas de bens dispensáveis, como automóveis e eletrodomésticos”, explica Alves.
Compra – Ao contrário do que muitos possam imaginar, o momento de crise pode ser uma boa oportunidade para se comprar ações, que estão com os preços consideravelmente mais baixos.
“É um bom momento para comprar, mas apenas se a pessoa pensar em longo prazo. As ações não foram feitas para especular, e sim para quem pretende ter um investimento com boa rentabilidade pensando no futuro, no complemento da aposentadoria”, explica o professor da USCS Francisco Funcia.
A recomendação de Funcia é seguida à risca pelo professor universitário Marco Antonio Picon. “Nesse momento, não penso em vender minhas ações. Pelo contrário, estou comprando mais papéis, pois acredito que a economia vai se recuperar. Bolsa é um investimento de longo prazo”, considera.
O funcionário público aposentado Artur Barbosa Horta também acredita na recuperação dos mercados. “Não tenho dúvida, isso é só uma questão de tempo. Aliás, se eu tivesse algum valor disponível hoje, compraria mais ações”, comenta.
Mas os economistas alertam que, antes de se arriscar, é necessário conhecer a dinâmica do mercado. “Quem não conhece e não tem tempo de acompanhar, certamente não é uma boa hora para começar”, avisa o professor da FGV Evaldo Alves.
“Primeiro, as pessoas precisam formar um entendimento. Só depois é que devem destinar uma parcela de seus recursos para a renda variável e fazer isso com muito cuidado”, acrescenta o economista da FEA/USP José Roberto Ferreira Savoia.
Carolina Lopes – Do Diário OnLine
Add comment Outubro 27, 2008
Sarkozy saúda iniciativa coordenada de bancos centrais ante a crise
O presidente da França e de turno da União Européia (UE), Nicolas Sarkozy, qualificou nesta quarta-feira de “excelente decisão, adaptada à atual situação econômica” a iniciativa tomada por bancos centrais de reduzir suas taxas de juros ante a crise internacional.
Sarkozy conversou com a imprensa durante a primeira Conferência Mundial sobre Política (World Policy Conference, WPC) organizada pelo Instituto francês de Relações Internacionais (IFRI) em Evian (centro-leste da França).
“Diante de uma crise de confiança, é preciso transmitir segurança tomando-se decisões coordenadas (…) Esta baixa dos índices responde perfeitamente à nossa situação, à necessidade de liquidez dos estabelecimentos bancários e à necessidade de alimentar a economia, facilitando os investimentos dos particulares e das empresas”, disse.
Também contou que telefona “todos os dias” ao primeiro-ministro britânico, Gordon Brown.
“O importante é que cada qual compreenda que uma reação coordenada tem mais possibilidades de ser eficaz”, insistiu.
“Pouco a pouco, esta coordenação se instala. Felicito-me e a presidência francesa (da UE) trabalha nesse sentido, não apenas a cada dia, mas a cada hora”, afirmou.
Add comment Outubro 9, 2008
Recuperação ou mais perdas? Rumo das bolsas está nas mãos do Congresso dos EUA
Falar da crise financeira é quase que redundante. Quando se pensa que as nuvens que pairam sobre Wall Street irão se dissipar, ventos trazem mais nebulosidade à praça financeira mais importante do globo. Após concordata do Lehman Brothers, socorro à AIG, atuação conjunta dos bancos centrais no mundo, entre outros eventos que mexeram com os investidores nos últimos dias, nesta semana que se passou, o foco ficou com o pacote anti-crise.
Nada menos que US$ 700 bilhões devem ser desembolsados pelo governo norte-americano para adquirir os ativos podres que vêm impactando os balanços contábeis das principais instituições financeiras. Ao menos, esta é a intenção de Henry Paulson, secretário do Tesouro dos EUA e grande arquiteto das dimensões do pacote.
Mas Paulson não está sozinho na expectativa de aprovação do pacote. “A despeito das dificuldades imprevistas, a crença é que o plano de socorro seja de fato aprovado, possivelmente com algumas modificações implementadas de última hora”, afirma Sidnei Nehme, da NGO Corretora de Câmbio. A perspectiva é compartilhada pela maior parte do mercado.
“Acredito sim que o Congresso norte-americano vá liberar o uso dos recursos”, afirma, em visão semelhante, Rossano Oltramari, sócio e analista da XP Investimentos. “E com o aval dos congressistas, o clima deve aos poucos se amenizar e as bolsas devem encontrar uma janela de recuperação”, arrisca.
“Cautela não faz mal a ninguém”
Todavia, um pouco de cautela não faz mal a ninguém. Tendo em vista a resistência que o pacote vem enfrentando, ironicamente, na bancada republicana, não se pode descartar a possibilidade de que o pacote não seja liberado. “Neste cenário, veremos uma escalada do stress nos mercados, com os negócios sendo abalados no mundo”, alerta Oltramari.
Por sua vez, Sidnei Nehme, da NGO Corretora de Câmbio, enxerga com olhos pessimistas o recente desempenho do mercado brasileiro. “Os movimentos parecem absolutamente descolados de qualquer fundamento sustentável. A queda atual é maior do que as repercussões no exterior”, observa.
De fato, a única certeza nos últimos tempos é de continuidade das incertezas, advindas das mais diversas esferas, inclusive da macroeconômica. Prova disso foi o crescimento anualizado do PIB (Produto Interno Bruto) dos EUA no segundo trimestre do ano, que nesta sexta-feira, revelou-se bem menor que o esperado.
Nesse sentido, entre os indicadores previstos para os próximos pregões, Oltramari destaca os relativos ao nível de atividade econômica, como o ISM Index, e o Relatório de Emprego. Mas ressalva: “embora possa impactar de certa forma os mercados, a agenda econômica tem ficado para segundo plano frente à magnitude do desenrolar da crise”.
O câmbio
Por fim, o investidor deve manter-se de olho também nas flutuações do mercado de câmbio, principalmente após os prejuízos revelados pela Sadia e pela Aracruz nesta sexta-feira. “Acredito que tenham sido casos isolados. Mas não custa nada ficar atento aos comunicados corporativos”, afirma Oltramari.
“A forte deformação na taxa cambial é altamente prejudicial aos negócios reais da economia e causa enormes prejuízos às empresas importantes que buscam a utilização de mecanismos legítimos nos segmentos do mercado de câmbio futuro”, explica Nehme, que acredita que as recentes oscilações na trajetória do dólar tenham forte cunho especulativo no mercado futuro.
Traçar projeções focadas ao curto prazo no atual momento de extrema turbulência é tarefa difícil, para não dizer impossível. “Talvez uma cartomante dê palpites mais precisos”, ironiza Oltramari. A prerrogativa é ainda mais válida no mercado de câmbio, reconhecidamente um dos mais instáveis.
Todavia, Oltramari acredita que o real deva, no médio e longo prazo, retomar sua trajetória de fortalecimento em relação à moeda norte-americana. “Os recentes movimentos são especulativos e devem se comportar apenas como uma correção”, afirma.
Add comment Setembro 28, 2008



